Ele (Cristo) é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. Colossenses 1:18
Saudações desde Kigali, Ruanda, onde a quarta Conferência Global do Futuro Anglicano (Global Anglican Future Conference – GAFCON) aconteceu entre os dias 17 a 21 de abril de 2023, reunindo 1.302 delegados de 52 países, incluindo 315 bispos, 456 outros clérigos e 531 leigos.
Ficamos gratos pela extraordinária hospitalidade oferecida pelo Arcebispo Laurent Mbanda e pela Igreja Anglicana de Ruanda. Ficamos profundamente tristes ao ouvir a notícia da perda do filho de Laurent e Chantal, Edwin, e continuamos a oferecer nossas orações de conforto para a família Mbanda.
Também tivemos o privilégio de sermos recebidos e dirigidos pelo Primeiro Ministro da República de Ruanda, o Honorável Edouard Ngirente, que falou sobre a importância do nosso encontro.
O tema da nossa conferência para 2023 ‘Para quem iremos nós?’ (João 6:68), juntamente com nossos estudos bíblicos na Carta aos Colossenses, concentrou nossa atenção em Jesus, aquele em quem habita corporalmente toda a plenitude de Deus, o Senhor de toda a criação e a cabeça de seu corpo, a Igreja (Colossenses 1:15-19; 2:9).
Nosso presidente em seu discurso de abertura nos incentivou a sermos uma igreja que se arrepende, uma igreja reconciliadora, uma igreja que se multiplica e uma igreja persistentemente compassiva. Esta é a igreja que queremos ser.
Fomos lembrados de que o propósito e a missão da igreja é dar a conhecer a um mundo perdido as gloriosas riquezas do evangelho, proclamando Cristo crucificado e ressuscitado, e vivendo fielmente juntos como seus discípulos.
Nossa Comunhão Mútua
Demos graças pela bondade e pela fidelidade de Deus ao movimento Gafcon desde o seu início em 2008, enquanto nos regozijávamos com uma nova geração de líderes emergentes. É Deus quem nos une a si mesmo e uns aos outros no poder do seu Espírito (1 Coríntios 12:13). Em meio a diversidade de nossas diferentes origens e culturas, nos deleitamos em nossa unidade em Cristo e no amor que compartilhamos.
Muitos de nós vimos de contextos de perseguição ou conflito e sabemos que quando uma parte do corpo sofre, todos sofrem. Por esta razão, alguns não puderam comparecer à conferência. Oramos por nossos irmãos e irmãs no Sudão e pela igreja perseguida. Também ouvimos testemunhos do poder do evangelho para transformar vidas, mesmo nessas circunstâncias, por meio da oração, bondade e compaixão dos cristãos.
A autoridade da palavra de Deus
As atuais divisões na Comunhão Anglicana têm sido causadas por afastamentos radicais do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Alguns dentro da Comunhão foram levados cativos por filosofias vazias e enganosas deste mundo (Colossenses 2:8). Tal falha em ouvir e atender à Palavra de Deus prejudica a missão da igreja como um todo.
A Bíblia é a Palavra de Deus escrita, soprada por Deus, como foi registrado por seus fiéis mensageiros (2 Timóteo 3:16). Ela carrega a própria autoridade de Deus, é sua própria intérprete e não precisa ser complementada, nem pode jamais ser anulada pela sabedoria humana.
A boa Palavra de Deus é a regra de nossas vidas como discípulos de Jesus e é a autoridade final na igreja.
Ela fundamenta, vivifica e dirige a nossa missão no mundo. A comunhão que desfrutamos com nosso Senhor ressuscitado e ascendido é nutrida à medida que confiamos na Palavra de Deus, obedecemos a ela e nos encorajamos mutuamente a permitir que ela molde cada área de nossas vidas.
Esta comunhão é quebrada quando nos desviamos da Palavra de Deus ou tentamos reinterpretá-la de qualquer forma que subverta a leitura simples do texto em seu contexto canônico e, assim, negamos sua veracidade, clareza, suficiência e, portanto, sua autoridade (Declaração de Jerusalém #2).
A Crise Atual na Comunhão Anglicana
Apesar de 25 anos de advertências persistentes por parte da maioria dos primazes anglicanos, repetidos afastamentos da autoridade da Palavra de Deus rasgaram o tecido da Comunhão. Esses avisos foram flagrantemente e deliberadamente desconsiderados e agora, sem arrependimento, este rasgo não pode ser restaurado.
O mais recente desses afastamentos é o voto majoritário no Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, em fevereiro de 2023, acolhendo as propostas dos bispos para permitir que casais do mesmo sexo recebam a bênção de Deus. Entristece o Espírito Santo e a nós que a liderança da Igreja da Inglaterra esteja determinada a abençoar o pecado.
Visto que o Senhor não abençoa as uniões entre pessoas do mesmo sexo, é pastoralmente enganoso e blasfemo elaborar orações que invoquem bênçãos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Qualquer recusa em seguir o ensino bíblico de que o único contexto apropriado para a atividade sexual é a união vitalícia exclusiva de um homem e uma mulher em casamento, viola a ordem criada (Gênesis 2:24; Mateus 19:4–6) e põe em risco a salvação (1 Coríntios 6:9).
As declarações públicas do Arcebispo de Cantuária e de outros líderes da Igreja da Inglaterra em apoio às bênçãos para união de pessoas do mesmo sexo, são uma traição aos seus votos de ordenação e sagração para banir o erro e manter e defender a verdade ensinada nas Escrituras.
Estas declarações são também um repúdio à Resolução I.10 da Conferência Lambeth de 1998, que declara que “a prática homossexual é incompatível com as Escrituras” e desaconselha a “legitimação ou a bênção das uniões entre pessoas do mesmo sexo”. Isto ocorreu apesar do Arcebispo de Cantuária ter afirmado que “a validade da resolução aprovada na Conferência de Lambeth de 1998, I.10, não é questionada e que toda a resolução ainda está em vigor”.
A Conferência de Lambeth de 2022 demonstrou as profundas divisões na Comunhão Anglicana, já que muitos bispos optaram por não comparecer e, alguns dos que compareceram, se retiraram da partilha na mesa do Senhor.
O fracasso do Arcebispo de Cantuária e dos outros Instrumentos de Comunhão
Não temos confiança de que nem o Arcebispo de Cantuária nem os outros Instrumentos de Comunhão por ele liderados (a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano e as Reuniões dos Primazes) sejam capazes de proporcionar um caminho divino que seja aceitável para aqueles que estão comprometidos com a veracidade, clareza, suficiência e autoridade das Escrituras. Os Instrumentos da Comunhão não conseguiram manter a verdadeira comunhão baseada na Palavra de Deus e a fé compartilhada em Cristo.
Todos os quatro instrumentos propõem que a direção para a Comunhão Anglicana é aprender a caminhar juntos em “boa discordância”. Entretanto, rejeitamos a afirmação de que duas posições contraditórias podem ser igualmente válidas em assuntos que afetam a salvação. Não podemos “caminhar juntos” em boa discordância com aqueles que deliberadamente escolheram afastar-se da ” fé uma vez por todas confiada aos santos.” (Judas 3). O povo de Deus “anda em seus caminhos”, “anda na verdade” e “anda na luz”, tudo isso exige que não andemos em comunhão cristã com os que estão nas trevas (Deuteronômio 8:6; 2 João 4; 1 João 1:7).
Sucessivos Arcebispos de Cantuária não conseguiram guardar a fé ao convidar para Lambeth bispos que abraçaram ou promoveram práticas contrárias às Escrituras. Este fracasso da disciplina da Igreja foi agravado pelo atual Arcebispo de Cantuária que, por sua vez, acolheu favoravelmente a provisão de recursos litúrgicos para abençoar estas práticas contrárias às Escrituras. Isto torna seu papel de liderança na Comunhão Anglicana totalmente indefensável.
Chamado ao Arrependimento
O arrependimento define e molda a vida cristã e a vida da igreja. A cada dia na Conferência, em resposta à Palavra de Deus na carta aos Colossenses, fomos direcionados a um tempo de arrependimento.
Reconhecendo nossos próprios pecados e humildemente como pecadores perdoados, oramos para que aqueles que negaram a fé cristã ortodoxa em palavras ou atos se arrependam e retornem ao Senhor (Declaração de Jerusalém #13).
Uma vez que aqueles que ensinam serão julgados com mais rigor (Tiago 3:1), convocamos as províncias, dioceses e líderes que se afastaram da ortodoxia bíblica a se arrependerem de sua falha em defender os ensinamentos da Bíblia. Isto inclui assuntos como a sexualidade humana e o casamento, a singularidade e divindade de Cristo, sua ressurreição corporal, seu retorno prometido, o chamado à fé e ao arrependimento e o julgamento final.
Ansiamos por este arrependimento, mas, até que isto aconteça, nossa comunhão com eles permanecerá rompida.
Consideramos que aqueles que se recusam a se arrepender, abdicaram de seu direito à liderança dentro da Comunhão Anglicana, e nos comprometemos a trabalhar com os primazes ortodoxos e outros líderes para restabelecer a Comunhão em seus fundamentos bíblicos.
Apoio aos Anglicanos Fiéis
Desde o início do Gafcon, tem sido necessário que os Primazes do Gafcon reconheçam novas jurisdições ortodoxas para os anglicanos fiéis, como a Igreja Anglicana na América do Norte (ACNA), a Igreja Anglicana no Brasil, a Rede Anglicana na Europa (ANiE), a Igreja de Confissão dos Anglicanos Aotearoa Nova Zelândia e a Diocese da Cruz do Sul. Encorajamos os Primazes do Gafcon a continuar a oferecer esse porto seguro para os anglicanos fiéis.
Em vista da crise atual, reiteramos nosso apoio àqueles que não podem permanecer na Igreja da Inglaterra por causa da falha de sua liderança. Regozijamo-nos com o crescimento da ANiE e de outras redes alinhadas com o Gafcon.
Também continuamos a nos apoiar e a orar pelos anglicanos fiéis que permanecem dentro da Igreja da Inglaterra. Apoiamos seus esforços para manter a ortodoxia bíblica e para resistir às violações da Resolução I.10.
Cuidado Pastoral Apropriado
Conscientes de nosso próprio pecado e fragilidade, nos comprometemos a proporcionar um cuidado pastoral adequado a todas as pessoas em nossas igrejas. Isto é ainda mais necessário no atual contexto de confusão sexual e de gênero, agravado por sua promoção deliberada e sistemática em todo o mundo.
O cuidado pastoral apropriado afirma fidelidade no casamento e abstinência na vida de solteiro. Não é um cuidado pastoral apropriado enganar as pessoas, fingindo que Deus abençoa os relacionamentos sexualmente ativos entre duas pessoas do mesmo sexo. Isto é pouco amoroso, pois os leva ao erro e coloca um obstáculo no caminho de sua herança do Reino de Deus (1 Coríntios 6:9-11).
Afirmamos que cada pessoa é amada por Deus e estamos determinados a amar como Deus ama. Como afirma a Resolução I.10, nos opomos à difamação e à calúnia de qualquer pessoa, inclusive daquelas que não seguem os caminhos de Deus, já que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus.
Somos gratos a Deus por todos aqueles que procuram viver uma vida de fidelidade à Palavra de Deus em face de todas as formas de tentação sexual.
Comprometemo-nos a apoiar e cuidar uns dos outros de uma forma amorosa e pastoralmente sensível, como membros do corpo de Cristo, edificando uns aos outros na Palavra e no Espírito, e encorajando uns aos outros a experimentar o poder transformador de Deus enquanto caminhamos pela fé no caminho do arrependimento e da obediência que leva à plenitude da vida.
Redefinindo a Comunhão
Ficamos maravilhados em receber em Kigali os líderes da Fraternidade das Igrejas Anglicanas do Sul Global (Global South Fellowship of Anglican Churches – GSFA) e de termos tido uma reunião conjunta entre os primazes Gafcon-GSFA. Juntos, esses primazes representam a esmagadora maioria (estimada em 85%) dos anglicanos em todo o mundo.
A liderança de ambos os grupos afirmou e celebrou seus papéis complementares na Comunhão Anglicana. Gafcon é um movimento focado em evangelismo e missão, plantação de igrejas e apoio bem como é um lar para anglicanos fiéis que são pressionados ou isoladas por dioceses e províncias revisionistas. O GSFA, por outro lado, está focado em estabelecer estruturas baseadas na doutrina dentro da Comunhão.
Nos alegramos com o compromisso em unidade de ambos os grupos sobre três fundamentos: o senhorio de Jesus Cristo; a autoridade e clareza da Palavra de Deus; e a prioridade da missão da igreja para o mundo. Reconhecemos sua concordância de que a “comunhão” entre igrejas e cristãos deve ser baseada na doutrina (Declaração de Jerusalém #13; Pacto GSFA 2.1.6). A identidade anglicana é definida por isto e não pelo reconhecimento da Sé de Cantuária.
Ambos os Primazes do GSFA e do Gafcon compartilham a opinião de que, devido aos desvios da ortodoxia articulada acima, eles não podem mais reconhecer o Arcebispo de Cantuária como um Instrumento de Comunhão, nem como o “primeiro entre iguais” dos Primazes. A Igreja da Inglaterra optou por prejudicar sua relação com as províncias ortodoxas da Comunhão.
Nós aplaudimos a Declaração da Quarta-feira de Cinzas do GSFA em 20 de fevereiro de 2023, pedindo um restabelecimento e a reordenação da Comunhão. Parabenizamos o convite dos Primazes do GSFA para colaborar com o Gafcon e com os outros agrupamentos anglicanos ortodoxos, para trabalhar juntos a forma e a natureza de nossa vida comum e como devemos manter a prioridade de proclamar o evangelho e fazer discípulos de todas as nações.
Redefinir a Comunhão é um assunto urgente. Ela precisa de uma base adequada e robusta que aborde as complexidades legais e constitucionais das diversas Províncias. O objetivo é que os anglicanos ortodoxos no mundo todo tenham uma identidade clara, um “lar espiritual” global do qual possam se orgulhar, e uma forte estrutura de liderança que lhes dê estabilidade e direção como anglicanos globais. Portanto, nos comprometemos a orar para que Deus guie este processo de redefinição e que o Gafcon e o GSFA se mantenham em sintonia com o Espírito.
Nosso Futuro Juntos
Ao considerarmos o futuro de nosso movimento, acolhemos as sete prioridades a seguir, articuladas pelo Secretário Geral e endossadas pelos primazes do Gafcon.
Nós vamos nos envolver em uma década de discipulado, evangelismo e missão (2023-2033).
Vamos nos dedicar a levantar a próxima geração de líderes no Gafcon por meio da educação teológica baseada na Bíblia que os equipará para serem centrados em Cristo e com um coração de servo.
Vamos priorizar o ministério de jovens e crianças que os instrui na Palavra do Senhor, os discipula até a maturidade em Cristo e os prepara para uma vida inteira de serviço cristão.
Afirmaremos e incentivaremos os ministérios vitais e diversos, incluindo os papéis de liderança, do ministério das Mulheres no Gafcon, agindo na família, igreja e sociedade, tanto como indivíduos quanto como grupos.
Demonstraremos a compaixão de Cristo através dos muitos ministérios de misericórdia do Gafcon.
Nós vamos financiar e apoiar o programa de treinamento de bispos, que produz líderes fiéis, corajosos e servos.
Construiremos os laços de comunhão e edificação mútua através de visitas interprovinciais dos nossos primazes.
Ao sair de nossa conferência, encorajamos o Conselho de Primazes a priorizar também o discipulado para meninos e homens.
A fim de perseguir estas prioridades e de fazer crescer o trabalho do movimento Gafcon, endossamos o estabelecimento de uma fundação para doação. Também encorajamos as províncias Gafcon a se tornarem financeiramente auto-suficientes, não apenas para avançar a missão, mas também para evitar serem vulneráveis à manipulação econômica.
O mais importante de tudo, nós nos comprometemos novamente com a missão evangélica de proclamar o Cristo crucificado, ressuscitado e ascendido, convidando todos a reconhecê-lo como Senhor no arrependimento e na fé, e vivendo uma obediência alegre e fiel a sua Palavra em todas as áreas de nossas vidas. Exploraremos novas maneiras de encorajar uns aos outros, de orar uns pelos outros e de nos responsabilizarmos uns pelos outros nestes pontos.
Nós nos entregamos nas mãos do nosso todo-poderoso e amoroso Pai celestial com a confiança de que ele cumprirá todas as suas promessas e, mesmo através de um tempo de poda, Cristo edificará a sua igreja.
‘Para onde iremos nós?’ Vamos a Cristo, o único que tem as palavras da vida eterna (João 6:68) e, então, vamos com Cristo para o mundo inteiro. Amém.
Pregue a palavra; estar preparado na estação e fora de época; corrija, repreenda e encoraje — com grande paciência e cuidadosa instrução. Pois virá o tempo em que as pessoas não suportarão a sã doutrina. Em vez disso, para atender aos seus próprios desejos, eles reunirão em torno deles um grande número de professores para dizer o que seus ouvidos coçando querem ouvir 2 Tm 4:2-5
A DECLARAÇÃO DA IGREJA ANGLICANA NO BRASIL
Após a divulgação na mídia nacional e internacional sobre a decisão do Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra de “abençoar” as uniões do mesmo sexo, a Igreja Anglicana no Brasil se une às conclusões da GSFA (Global South Fellowship of Anglican Churches e da GAFCON (Global Anglican Future Conference) e entende a necessidade de fazer os seguintes esclarecimentos.
A Comunhão Anglicana compreende mais de 40 províncias autônomas, que são igrejas nacionais e, em alguns casos, multinacionais, envolvendo mais de um país. Seus cânones os governam. E espera-se que vivam em unidade com as outras Províncias da Comunhão.
Os anglicanos na Inglaterra formam “A Igreja da Inglaterra”, e é uma dessas mais de 40 províncias.
A decisão tomada pela Igreja da Inglaterra em seu sínodo nacional esta semana não afeta as outras igrejas da Comunhão Anglicana e se aplica apenas a essa igreja.
A Igreja Anglicana no Brasil faz parte de anglicanos em todo o mundo que permanecem fiéis às Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento e seguem as resoluções estabelecidas por sua maioria na Conferência de Lambeth em 1998, especialmente a relativa à sexualidade humana (resolução 1:10)
A Igreja Anglicana no Brasil faz parte da GAFCON (Conferência Global para o Futuro do Anglicanismo), signatária da “Declaração de Jerusalém” e membro da Global South Fellowship of Anglican Churches (GSFA), que reúne mais de 70 milhões de anglicanos em todo o mundo que permanecem fiéis à Bíblia como a Palavra de Deus.
A Igreja Anglicana no Brasil refuta o revisionismo bíblico que vem “rasgando” o frágil tecido da unidade da igreja.
Como cristãos, amamos todos os seres humanos, vendo-os como criação de Deus e, como tal, em constante necessidade do amor e do perdão de Deus; de nós mesmos, também podemos identificar o pecado em nossas vidas.
A união entre um homem e uma mulher é como biblicamente entendemos o casamento, por isso o defendemos e praticamos. (Gênesis 2:24)
Nós nos voltamos contra a violência contra qualquer ser humano, apesar de sua identidade sexual, e reconhecemos a necessidade de cuidado pastoral para aqueles em conflito.
Estamos ansiosos para o GAFCON IV em abril, quando, juntamente com milhares de anglicanos, oraremos, refletiremos e decidiremos os próximos passos a serem dados sobre o assunto.
DECISÃO DO ACiB
Em reflexão e oração, o Conselho Executivo da Igreja Anglicana no Brasil decidiu: Declarar Quebra de comunhão com Dioceses, igrejas, instituições e líderes da Comunhão Anglicana que apoiam as resoluções do Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra de 2023 sobre bênçãos do mesmo sexo. Também acreditamos ansiosamente que muitos anglicanos na Inglaterra mantêm a fé ortodoxa e estão sob ameaça, por isso oferecemos nossas orações e apoio de qualquer maneira possível.
Aos Cristãos da Nação Brasileira, especialmente à família Anglicana no Brasil
Recife, 05 de outubro de 2022
Nós, bispos do Colégio Episcopal da igreja Anglicana no Brasil, chegamos até vocês para cumprir com o nosso ministério pastoral e profético de anunciar o Reino de Deus, denunciar toda injustiça e tudo aquilo que se levante contra os valores deste Reino. Para tal nesse período eleitoral e decisivo da nossa nação, recomendamos que:
Nenhuma de nossas igrejas devem ser usadas como tribuna para candidatos de qualquer partido
Nossos clérigos não devem se envolver em campanhas de qualquer candidato
Oremos, porque nossa nação precisa de nossos joelhos (1 Tm 2:1-2)
Exerçamos nossa cidadania – Todo(a) brasileiro(a) devidamente habilitado(a) pode e deve exercer o direito de escolher um candidato. Recomendamos que não se abstenham, não se isentem, não sejamos omissos em um momento tão crítico da nação. (Mt 5:13-16)
Atentemos para a importância da eleição- Além do presidente, 12 Estados ainda estarão escolhendo seus mandatários e nossa participação continua sendo fundamental. ( 1 Ts 5:21)
Tenhamos serenidade diante de todo tumulto. A campanha eleitoral está acirrada. A serenidade é necessária diante de tanta confusão estabelecida nessa disputa. Recomendamos pensar e não se deixar manipular pelos discursos e promessas que são as mesmas a cada quatro anos. ( 2 Tm 2:23-24)
Entendamos que obrigação não é proposta- Os candidatos a cada eleição afirmam com altivez que defenderão especialmente os pobres com os recursos para EDUCACÃO-SAÚDE-COMBATE A VIOLENCIA- SEGURANÇA. Lembrem que essas são parte das obrigações constitucionais do Estado e não benefícios que eles trarão. Eles são OBRIGADOS a fazer isso. Candidatos e seus apoiadores colocam esses temas como sendo uma grande proposta pessoal deles e não obrigação do Estado e de sua função de parlamentar. (Pv 14:31)
Não nos deixemos manipular, observemos se há coerência. Sugerimos fazer uma pesquisa sobre o candidato e seus apoiadores, quem eles são, se há coerência em suas alianças e propostas. (Mt 5:37)
Priorizemos princípios e valores. Os valores Judaico-cristãos são a base da sociedade ocidental. Você como cristão(ã) deve lutar para preservá-los. Os legisladores estão entrando nos nossos lares e contra o direito da família, tem tentado educar nossos filhos através da criação de leis e estratégias dentro do sistema educativo. Não sejamos ingênuos, o mal não se apresenta raivoso, mas sonso. O que pensa o seu Candidato ou seus apoiadores a esse respeito? Abaixo alguns desdobramentos dos Princípios e valores que são inegociáveis e defendemos como cristãos (Pv 22:6)
Valores da família- A cristandade crê na família como a união de um homem e uma mulher com o proposito de ser feliz, de procriar e encher a terra da graça de Deus. Rejeitamos veementemente o que tem se chamado de “ideologia de gênero” abusando emocionalmente nossas crianças. A criação de uma criança sem a presença masculina e a feminina traz malefícios comprovados cientificamente há muito. O que defendem os seus candidatos e seus apoiadores a esse respeito? (Js 24:15)
Valores éticos – A honestidade e a integridade são valores inegociáveis. Os candidatos devem ter seus nomes limpos e nunca terem atentado contra o erário publico, que drena as riquezas da nação. Recentemente vimos o nosso país ser alvo do maior escândalo de corrupção de nossa história e talvez do mundo. A corrupção não tem partido ou ideologia, ela é um mal do desvio dos propósitos de Deus. Como se comporta seu candidato a esse respeito? (Jó 15:16)
Valores da vida – Como cristãos defendemos a vida e somos contra a interrupção da gravidez em qualquer fase dela, desde a fecundação. Entendemos o aborto como o assassinato de um não nascido indefeso. Não se pode argumentar que “mulheres estão morrendo por abortos ilegais “e escolher matar outro ser indefeso para salvá-la. Ambos devem ter direito a vida. O que seus candidatos e seus apoiadores pensam sobre isso? (Ex 20:13;Dt 5:17)
Valores da justiça– Justiça na compreensão do evangelho é “fazer a coisa certa”, o cristianismo defende a igualdade de oportunidade para todos e o cuidado com os mais desprovidos e marginalizados da sociedade. Rejeitamos as sociofobias seja homo, hétero ou de qualquer tipo. Todos devem ser iguais perante a lei e todos devem ter deveres e direitos. (Jó 8:3)
Ideologização do gênero humano – Entendemos que Deus criou homem e mulher para se completarem, crescerem e multiplicarem. O que vá além disso é opção pessoal de cada um e devem ser respeitados os que creem e os que fazem suas opções. (Gn 1:27)
Valores espirituais – Sim entendemos ser importante avaliar a espiritualidade de seu candidato. O Estado é laico para não promover uma confissão, mas a nação é livre para viver de acordo coma sua espiritualidade. Nosso Deus é Jesus Cristo, rejeited optar por candidatos que se opõem a fé cristã. (Ex 20:3)
Defendamos a livre iniciativa e o direito à propriedade – O Estado tem suas obrigações e a iniciativa privada deve ter sua liberdade. Defendemos a economia de mercado e entendemos que o Congresso Nacional e a Presidência da República tem o dever de promover uma economia equilibrada, fortalecer o acesso ao crédito, valorizar as riquezas nacionais, diminuir o tamanho do Estado para que haja geração de empregos que trará́ uma sociedade mais justa e, preservar o direito à propriedade combatendo as invasões delas. Nossa herança protestante dá valor a iniciativa privada com ética e honestidade e justiça. (Ex 20:17)
Lembremo-nos dos mais necessitados – Com seu voto, você tem a oportunidade para defender quem é mais vulnerável na sociedade. De acordo com a Bíblia, os governantes têm o dever de proteger os mais necessitados. Enquanto você analisa as políticas de cada candidato, não pense somente em você. Pense também em quem precisa de ajuda.( Pv 312:8-9)
Entendamos que não há candidatos “ungidos” – A política é uma atividade nobre e deve ser exercida para o povo e em benefício dele. A Igreja não deve ser “cabo eleitoral”. A lei proíbe o uso da estrutura das religiões e da fé como plataforma de lançamento de candidatos. Estamos elegendo pessoas para fazer o bem da nação e não da “minha religião”. Qual a prática de seu candidato e de seus apoiadores a esse respeito? (1 Samuel 15:26)
Denunciemos toda forma de corrupção. Ela destrói as bases produtivas e a economia da nação, drenando seus recursos e evitando que eles sejam utilizados em prol das obrigações inerentes ao Estado. Seu candidato ou seus apoiadores estão ou estiveram envolvidos em corrupção? (Ex 20:15)
Defendamos o Estado Laico, mas não ateu- O Estado laico defende a liberdade religiosa e não prioriza nenhuma delas. Temos visto uma tentativa de se criar um Estado “Cristianofóbico”. Qual a postura de seu candidato e de seus apoiadores quanto a isso? (T 5:10-12)
Rejeitemos a legalização do consumo de drogas- Entendemos que o que gera o tráfico de drogas são os consumidores. Muitos deles são vítimas outros são protagonistas e, conscientes ou não, se tornam os associados indiretos dos traficantes, sem consumidores não haverá́ tráfico. As drogas têm sido a causa de muitos dos maiores males que vive a sociedade mundial. Como Igreja temos lutado com nossas forcas com ou sem apoio do Estado na criação de redes de apoio e casas de recuperação de usuários de drogas. Entendemos que a educação e uma família equilibrada são o maior antidoto contra o uso de drogas. Essa tem sido a missão da Igreja. O que seu candidato e seus apoiadores pensam sobre isso? (1 Pe 5:8)
Escolhamos candidatos- Existem candidatos e partidos que podem ser identificados dentro dessas recomendações. A escolha será́ sempre de cada um de nós, e as consequências da mesma forma, sempre serão sofridas por cada um de nós.
Essa é a nossa posição como Igreja de Jesus Cristo, que Deus nos abençoe e tenha misericórdia de nós.
Revmo. ++ Miguel Uchoa Cavalcanti
Bispo Diocesano de Recife e Primaz do Brasil
Revmo. + Marcio Meira
Bispo Diocesano de João Pessoa PB
Revmo. + Marcio Simões
Bispo Diocesano de Vitória PE
Revmo. + Evilásio Tenório
Bispo Auxiliar de Recife
Revmo. + Flavio Adair
Bispo Auxiliar de Recife Norte
“Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores para privar os pobres dos seus direitos e da justiça” (Isaías 10, 1)
Tenho acompanhado um “debate”, se assim posso chamar, em torno de liturgias, adoração, ordem de culto, músicas, hinos, instrumentos e parece sem fim tudo isso. Sou do tempo em que o violão começou a ser introduzido no templo, pois até então, apenas era autorizado nas reuniões da “Mocidade”. Bateria, essa misericórdia, demorou ainda muito mais.
Hoje, na realidade, percebo uma verdadeira “batalha” onde o fogo amigo se espalha e atinge a muitos com seus estilhaços da ausência de bom senso e o desejo de prevalecer. Isso deve ser visto como triste e lamentável. Nenhum reformador desejou isso, nenhum grande líder almejou prevalecer para que o outro irmão “perdesse”. Tenho tido o privilégio de andar pelo mundo e continentes e ver o quanto essa discussão é ineficaz.
Certa vez assisti a um culto na internet em que, se eu fechasse os olhos, voltaria ao século passado, lembrando que eu, sou do século passado! As mesmas músicas, a mesma forma de culto e liturgia que eu, mesmo sendo daquele século, não me encaixo mais. No entanto, outros se encaixam e adoram verdadeiramente a Deus daquela maneira. Mas qual o problema então Bispo? O problema é o desejo incontido de prevalecer e afirmar aquilo como “A” forma de adoração verdadeira.
Há um livro de D.A. Carson e Tim Keller chamado “Louvor” publicado pela Thomas Nelson, e um capítulo foi escrito por um anglicano, Mark Ashton onde ele tenta repensar o que Tomas Cranmer pretendia quando ele construiu o Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana. Ele diz isso.
“nunca foi o desejo de Tomas Cranmer congelar a liturgia anglicana por séculos para acabar perdendo sua relevância cultural e reapresentar a obscuridade da igreja, aspecto que ele trabalhou duro para remover” [1]
Deveríamos enxergar isso com os corações mais abertos, com maior flexibilidade, maior humildade e, menos espírito de julgamento. Tenho acompanhado a trajetória da adoração na igreja há algumas décadas e me entristece observar o juízo feito facilmente pelos que se consideram “históricos” contra os que eles consideram modernos (Worship) é o codinome dado e, vice-versa. Conheço adoração histórica vazia, repetitiva e sem espírito da presença e ao mesmo tempo observo ambientes do chamado show gospel das “Church” cheios de Deus e, vice-versa também.
Apresento aqui 5 aspectos que não podem faltar em nenhuma celebração, não espero sua concordância, mas espero seu bom senso, vamos lá?
ORAÇÃO
Existem celebrações quase completamente desprovidas de oração. A única oração em todo o serviço as vezes é depois do ofertório ou quando pregador termina o sermão. Não há orações de confissão, de intercessão, de ação de graças. Este é um padrão que temos visto crescer. A oração nos cultos se tornando rara e mínima em vez de comum e intensa. Me lembro de uma igreja que visitava na minha juventude por ter amigos ali. Havia oração no começo do culto é verdade. O pastor ou dirigente dizia “Vamos iniciar o culto com a oração do irmão “Fulano”. Confesso que morria de medo de que ele me chamasse um dia.
Sou anglicano e a liturgia anglicana não dispensa os momentos de oração no culto e a intercessão é parte intensa de nossa liturgia. Nossas intercessões vão desde o mundo, as nações, as missões o país, os governantes, presidente, governador, prefeito e autoridades e fazemos isso nominalmente, independentemente de quem sejam. Seguimos orando pelos enfermos, pela igreja, liderança e “descemos para a igreja local e seus líderes. Essa oração pode ser sim apenas um rito e se tornar algo enfadonho e protocolar. Nas nossas igrejas não permitimos isso e, clamamos com toda congregação, por cada um dos motivos
Um culto sem oração é um címbalo que retine
2. LEITURA DAS ESCRITURAS
Outro elemento que está se rareando nas celebrações é a leitura das escrituras. Houve um tempo em que a leitura da Bíblia nos cultos era dividida em 4 porções. Leitura do AT, dos salmos, das epístolas e do evangelho. Isso teve seu sentido no passado onde as pessoas sequer tinham acesso a bíblia.
Na época, foram impressas 3.000 cópias – considerada uma grande tiragem para o período. Cada exemplar custava entre meio gulden e 1,5 guldens, a moeda do sul da Alemanha. Era uma bela soma em dinheiro, mas bem mais barata do que as versões anteriores do Livro Sagrado. “Antes de Lutero, você tinha que pagar o equivalente, hoje em dia, a um Mercedes Classe S por uma Bíblia impressa. No século 16, uma Bíblia de Lutero era vendida pelo mesmo preço que uma geladeira hoje em dia”, compara o teólogo Hartmut Hövelmann…[2]
Nos cultos se lia as lições do lecionário para que a Bíblia fosse exposta ao povo que também era em sua maioria analfabeto. Não vejo problema em se fazer essa leitura, desde que a mensagem do dia esteja nelas, para que todos possam refletir e não apenas ler. Mas o salto das 4 leituras para praticamente nenhuma, foi longe demais. Existem igrejas que seguem fazendo as 4 leituras e, muitas vezes pregam em um texto diferente, elevando-as para 5. Sem exageros e tornando a coisa mais dinâmica, todos tem acesso a bíblia que pode ser lida a qualquer momento. Nas nossas celebrações lemos os textos que serão expostos no sermão.
3. CONFISSÃO DOS PECADOS E CERTEZA DE PERDÃO
Tradicionalmente, os cultos protestantes incluíam uma confissão de pecados associado claro ao perdão de Deus. Vejo aqui em minha mesa o manual de liturgia da Igreja Luterana que, assim como as demais igrejas históricas possuem em seus ritos o momento de confissão, onde um dirigente conduz a congregação e em seguida clama pelo perdão de Deus. Isso é muito bom, traz alívio e renovo a cada um. É um momento solene, mas não triste e o perdão deve ser visto com a maior alegria possível. Observo que o problema as vezes está na maneira que se conduz. Já participei de momentos de confissão e perdão onde tive vontade de sair da igreja pelo peso de culpa que se colocou sobre as pessoas. Solenidade não é sinônimo de espiritualidade nem de reverência, a alegria é reverente também.
4. PREGAÇÃO ONDE A BÍBLIA É EXPOSTA
Quando Paulo escreveu ao jovem pastor Timóteo, ele o instruiu a pregar a Palavra
Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente: Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. Você, porém, seja sóbrio em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério. 2 Tm 4:1-5
Os cristãos há muito entenderam que a melhor maneira de pregar a palavra fielmente é pregar de tal forma que o ponto do sermão corresponda ao texto. O pregador precisa entender não apenas a redação da passagem, mas a intenção do autor em escrevê-la etc. Isso leva à uma interpretação e aplicação mais fiel. O advento do “Coach Brasileiro”, algo bem tupiniquim, uma verdadeira jaboticaba, as pregações tem seguido essa linha e assim seguem em diferentes igrejas, históricas, contemporâneas etc. o pregador fez o curso de coach e esqueceu o conteúdo da Bíblia. Escolhe alguns textos bíblicos e citando-os aqui e ali, segue afirmando o positivismo geral…você pode, você consegue, você vai sair daqui hoje vencedor… e por aí vai.
Por outro lado, os expositores radicais seguem dando aulas nos púlpitos e pouco aplicam à vida das pessoas. O púlpito nesses casos se tornou uma academia e quanto mais títulos, melhor. Mas as pessoas seguem dizendo: “o que isso tem a ver com minha vida? A pobreza de aplicação dos expositores e a pobreza de conteúdo dos coaches, tem gerado uma igreja desnutrida. Alguns históricos desnutridos enquanto outros “modernos desnutridos”. Precisam todos saber que quando um pregador não tem cultura bíblica se percebe facilmente na sua exposição.
5. ADORAÇÃO CONGREGACIONAL
Todos sabemos e se não, devemos saber que o objetivo das bandas de louvor é servir e facilitar, não atuar e performar. Isso não se discute. No entanto a música tem uma parte decisiva na adoração comunitária bem como no evangelismo. Eu me converti aos 23 anos de idade, era fã do rock e da boa mpb. Um dos grandes obstáculos a minha conversão foi a música nas igrejas. Levava minha mãe ao culto e as vezes ela pedia para eu ficar e eu ficava, mas aquilo era um grande sacrifício, sim aquela música me torturava. Me aproximei de cristo quando conheci os “meninos de Deus” (Jesus people) e por quê? Porque a música deles me chamou a atenção.
Para alguns o canto congregacional deve ser de tal forma que as vozes do povo sobem mais alto que os instrumentos e dos ministros da música. Muitos se queixam que as igrejas se afastaram dos hinos, canções que dizem tinham verdade profunda definida para melodias simples, mas belas. Concordo em parte os hinos clássicos são peças musicais. E podem ser usados hoje, se adequando em estilo e melodias mais ajustadas aos tempos atuais. Igrejas onde se canta a capela ou no máximo com um piano defendem que esse é o modelo “certo” e aí vem mais uma vez o erro. Será possível que não se compreendeu que não há estilo, volume, instrumento ou qualquer outra coisa que possa definir uma verdadeira adoração? Ninguém pode julgar a adoração de ninguém pois ela se define no coração. Existem címbalos sonoros nas igrejas históricas com os hinos assim como em qualquer outra igreja contemporânea. Quem se preocupar com repetição, com clamor pessoal etc. deve dar uma passeada nos salmos ou retirá-los de suas bíblias pois talvez pareça “worship” demais.
A Liturgia Anglicana pede que haja equilíbrio nas celebrações e para isso existe um “esqueleto” uma “coluna vertebral” Que promove esse equilíbrio e que Tomas Cranmer sistematizou muito bem, e toda celebração deve ter:
Adoração
Orações e intercessões
Leitura da Palavra de Deus
Pregação Bíblica
Momento de ofertório
Enquanto houver o desejo de prevalecer e definir o que seja a “verdadeira adoração? Nos moldes culturais e denominacionais, deixaremos passar a oportunidade de exercer a nossa fé, agradar a Deus e ver o “O senhor acrescentando aqueles que irão sendo salvos”
Miguel Uchoa
Bispo Anglicano
[1] Ashton, Mark. louvor: análise teológica e prática. 1 Ed Rio de Janeiro? Thomaz Nelson Brasil.2017. P62
Em um mundo que já enfrenta todo tipo de adversidade, crises e dilemas, a crise sanitária do novo coronavírus vem agravar toda essa realidade. Estamos convivendo com famílias, pessoas, empresas, escolas, comércio e todo tipo de agrupamento e deles ouvimos a mesma e clássica frase “as coisas estão difíceis”. E de fato estão e, a igreja é parte dessa difícil realidade e, enfrenta também seus grandes desafios. “não está fácil pra ninguém”.
Tenho acompanhado a discussão da essencialidade e sinceramente não acredito que ela esteja diretamente vinculada, nesse momento, à questão de ter ou não celebrações presenciais. Não resta dúvida que ela é essencial, a constituição federal garante essa essencialidade dando a fé (qualquer uma) o caráter de “inviolável”.
O debate sobre a essencialidade da igreja (fé) tem tomado a mídia, as redes sociais e alcançou o supremo tribunal federal (STF). Lamentavelmente, o rumo que esse mesmo debate tomou não ajudou a igreja a aproveitar essa imensa oportunidade e agir de maneira racional, para não dizer inteligente. Sem querer ser o “inteligente” aqui e, apenas analisando os fatos podemos observar tudo isso por diferentes ângulos.
O ângulo do estado _ O estado brasileiro, assim como tantos outros em diferentes partes do globo, estava despreparado para agir adequadamente e enfrentar a pandemia. No caso do Brasil claro ainda mais despreparado. Tudo se agravou pelo oportunismo político – partidário que transformou a pandemia em um campo de batalha no âmbito municipal, estadual e federal entre governistas e oposicionistas. Além disso, a endêmica corrupção eclodiu mais uma vez e os aproveitadores se “lambuzaram” usando a expressão de minha terra, buscando tirar vantagens sobre a população indefesa.
A classe política se dividiu entre aqueles que insistiram em minimizar a crise e a doença em si e do outro os que a supervalorizam buscando os dividendos ($) recebidos da união e as liberações de editais onde se faz ser desnecessária as licitações. Assim se abriram as porteiras para o descaso e a corrupção e, ao que parece, os números foram e são mascarados e os registros de causa mortis dados como covid 19 quando pessoas morreram de outras causas vem sendo noticiados por familiares. O Estado sabe, mas ao que parece, não quer lidar coma situação, como se faz necessário, por não ser interessante para ele. A pandemia passou a ser uma ferramenta de poder e manipulação.
O que me incomoda não são os decretos que limitam a presença na igreja, mas sim os dois pesos e as duas medidas que são colocadas pelos governos. Na paraíba por um tempo tudo estava aberto e liberado, mas as igrejas estavam fechadas, em Pernambuco mantiveram as concessionárias de veículos abertas e fecharam as igrejas e ainda se ouviu em grande audiência, um secretario de estado dizer: “todos tem o direito de comprar seu carrinho”. Sem falar nas eleições municipais onde candidatos aglomeraram multidões e depois, todos vimos os números crescerem vertiginosamente.
O ângulo da mídia_ dificilmente há no Brasil, quiçá no mundo, uma mídia isenta de interesses de todo tipo. Sim, acredito nas exceções, que no meu entendimento são raras. No Brasil, salvo essas exceções, a imprensa televisiva é um desastre, os noticiários servem de instrumentos manipulativos a uma população desinformada. Os noticiários fazem questão de mostrar os detalhes do sofrimento dos indivíduos que mais parece uma sessão de cinema de tragédia, chamando assim a atenção da população e gerando pânico. Isso mantem a população ligada e gera audiência que é o que a eles importa.
O ângulo da Igreja_ A igreja, como já dissemos é essencial à população, sim é, mas também não é nenhuma novidade que a sua essencialidade não está, apenas, nas celebrações presenciais. Essas são a assembleia dos santos, lugar e momento em que a comunidade da fé acontece com intensidade e o conselho do escritor da carta aos hebreus em um contexto de guardar a fé é
Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia. Hb 10:25
Esse momento é sagrado e vital para a manutenção da comunidade da fé. No entanto a igreja e nós cristãos precisamos pensar estrategicamente e nos associarmos a todos que, de boa fé, estão dentro dessa batalha contra essa enfermidade. Ao longo da história a igreja sempre atuou com sua presença nas calamidades, pandemias e em situações em que a sociedade demandava a presença de uma voz e ação de misericórdia. Essa natureza é intrínseca da igreja de Jesus Cristo desde os primeiros séculos em que os cristãos eram conhecidos por serem aqueles que cuidavam dos doentes das enfermidades mais graves quando ninguém se dispunha a cuidar.
Acredito que é hora de, de como igreja, sermos esse braço de misericórdia, essa presença de amor e cuidado e exemplo para todos. Não vejo com simpatia a entrada da igreja em “brigas” intermináveis e com insistência solicitando a abertura dos templos para as celebrações presenciais. Vamos acordar para o fato, para a realidade, as pessoas estão morrendo, estão passando fome, a crise alimentar se avoluma e a presença da igreja precisa ser para mitigar essa dor dos enlutados e dos necessitados.
Se, como igreja seguirmos sendo o braço de misericórdia, se como cristãos, independentemente de bandeira denominacional, nos debruçarmos em servir, atender, aconselhar, consolar, criar campanhas de ajuda emergencial, levantar alimento, sermos voz ativa em meio a toda essa turbulência que vivemos e, nos preocuparmos menos comas celebrações presenciais, acredito que ajudaremos muito pois somos a maior força voluntária do planeta.
A Igreja, de maneira geral perdeu quando levou um apelo ao STF para a liberação das celebrações presenciais. Perdeu porque deu voz a um tribunal laico, desvinculado da vida eclesial, com suas próprias prioridades e interesses. E essa voz foi quase que uníssona de críticas às igrejas. Demos assim a oportunidade aos “gentios” julgarem os “justos” e nos darem lições de como agir em cadeia nacional. A igreja, nas palavras de um pastor amigo, “foi achincalhada na suprema corte do país porque políticos e “pastores políticos” vendem a alma por poder a mamon… a noiva não merece isso, Jesus está chorando novamente”
Nas nossas igrejas, temos seguido os protocolos e realizado celebrações presenciais dentro de todas as normas sanitárias, o número de fiéis presentes foi drasticamente reduzido, investimos em transmissões on line e estamos seguindo na missão. Mas, é fato que sentimos muita falta de estar na igreja local cheia de irmãos e irmãs, sentimos a falta do abraço amigo, da oração presente, do compartilhar olhando nos olhos… nada disso é o ideal mas talvez seja a nossa contribuição no momento Não podemos virar as costas e negar a realidade que estamos vivendo.
Creio que é tempo de sermos mais solidários e deixarmos esse “espírito cruzado”, essa mania de enxergar em tudo a sombra da perseguição. A igreja seguirá triunfando, foi ela a única instituição que viu e continuará vendo a ascensão e a queda dos impérios, reinados e governos… Como diz o hino “ninguém detém é obra santa